Tudo é uma questão de semântica.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Amarelo-Sangue


Pálido
Amarelo
Mal distribuído.
Era o sinal de que minha vida findava
Gota a gota
Enquanto respingava meu resto de sangue no mundo,
Respingavam minhas lágrimas para dentro

Como um cão atropelado e morrendo
Eu sofria
Com meu ar em extinção
Entrando e saindo como placebo das minhas narinas
Com meu amarelo-sangue
Extinguindo o que restou da minha jovem pseudo-vida
Eu era um ser extinto!
Jazia em vida...
Vontade de ser ainda tinha,
Mas não mais seria.
Nem mais astronauta, nem mais bombeira, nem mais professora, nem mais bailarina... Havia um ponto posto precocemente em minha vida.

E todos os pecados eram perdoados, pois dizem que os que se vão de chagas fortes
Do inferno estão livres
Então, eu cesso a palavra em paz
E aceito o presente purgatório
Morro,
Me esvazio,
Me vou,
Me desmancho em verso
Mas parto como poeta que sou
E transformo meu corpo que agora jaz em uma cama fria
Em meu último verso

Morro pra virar poesia.





terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ode à honestidade


Criança tola
Chora, esperneia, grita, faz birra
Quer tudo, quer agora, quer já
Se não tem, chora
Inconformada, se joga no chão e grita

Crescemos. E a tolice?
Ah, a tolice, essa permanece...
Engolimos o choro, esperneamos quando ninguém vê
Mas continuamos querendo tudo, e querendo agora...
Se não temos, choramos ainda, sim!
Inconformados? Sempre!
Aprendemos a abafar o grito
Mas as birras são cada vez piores.
Crescemos...
Crescemos?

As crianças ao menos são mais honestas,

No final, tolos somos nós.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

DAS DORES QUE NÃO ARDEM MAIS

TODA A DOR PARAVA EM UM PONTO:

NÃO EXISTIA POR QUEM SOFRER

NÃO EXISTIA DOR VERDADEIRA

SÓ UM PESINHO GOSTOSO DE DESAMOR

VEZES VAGABUNDO

VEZESVAZIO DE MAIS

VEZES QUERENDO ABRAÇAR O MUNDO...

MAS SEMPRE, SEMPRE SE PROCURANDO E SE DESENCONTRANDO CADA VEZ MAIS

POIS EU TINHA A POESIA EM MIM

E PARA TAL VAZAR PELOS POROS E DEDOS

EU PRECISAVA TER

PELO O QUE


SOFRER.

sábado, 5 de março de 2016

Pós-abstinência



No auge de toda a minha decadência
Olho por cima do prédio e dos ombros
De costas eu penso:
O que me trouxe até aqui?

Manter os pés no chão e sempre gritar os mesmos versos,
não foi suficiente solução.

Do alto do prédio eu vejo as luzes
E calculo o percentual de dor que sentirei
Ao tocar meu corpo já frio no chão
Vou? Fico?

Do alto do prédio eu vejo as luzes de todos os bares
E o reflexo de todos os copos
O cheiro vazio de todos os corpos
E sinto vergonha de estar ali.

Caindo lentamente uma cinza de cigarro
Do alto do prédio eu penso na ironia, que tem a vida
Em todos os passantes na rua, que tem a vida
Com quantos me deparei, durante a vida
Quantos eu não deveria ter deixado ir?

Do alto do prédio eu desço
E procuro a luz, que
                    ainda
                        tem a vida
A encontro nesses reflexos de copos bares, e a mato mais uma vez.

Que vida pode existir num bar?
Que vida pode existir num copo?
Que vida pode existir num corpo?
A vida deixa de existir, no topo.

Do alto do prédio eu desço
Finco meus pés no chão
Sigo em busca do reflexo (outro copo)
Mas no fim, eu só trago a solidão.

O desamor me tornou decadente
Os bares, fiel salvação

Do alto do prédio, eu já pulei faz tempo, e nem sequer percebi.