Tudo é uma questão de semântica.

sábado, 19 de setembro de 2015

Pergunte ao Fante



Eu sou o amargo preso na tua garganta
A cólera alucinógena em todos os teus rastros
Trazendo-te cada vez mais para dentro de mim
Causando em cada dose, maiores estragos.

Eu sou o demônio que te coloca no colo
E te nina...  Até a ficha cair
Onde o tiro chega a ti como uma luva,
De onde sabes que não podes mais sair.

Eu sou a fome implantada em tua loucura
A fome de tudo que te tira do chão
Que ilusoriamente pensas que te cura
Abandonando-te sempre mais forte na contramão

Eu sou o tiro em cheio, bem no meio do teu peito!
Eu sou onde descansas, onde encontras leito,
O súbito grito abafado nesse amargo...
O hálito seco nessa sede infernal
A cara amassada nesse falso sorriso matinal
Eu sou as vírgulas engolidas e a raiva remoendo
Sou a faca atravessada no teu pulso
Sou o manicômio que te traga a vida
O reencontro com teu final lento...
Estou aqui para te trazer afagos e sorrisos... Meu bem.
Levanta a cara desse tabuleiro sujo,
Olha as tuas marcas que o espelho não mostra
Joga fora essa caneta vagabunda
Que só escreve em ti, linhas tortas
Sente o meu amargo no teu ventre
Envenenando tua pupila hora a hora
Sente o sangue que em teu peito bate quente
E tua sentença construída no agora.

Voa lento, voa alto, voa sempre
Pousa firme, segura e em frente
Aproveita as asas e segue consciente:
Pois esse beijo que adoça a tua pupila
É o mesmo tiro que ainda amarga as tuas asas,
E essa sede de quem acha tudo novo
Ainda há de te impedir de alçar vôo.







segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CRISE DE ANSIEDADE



É no meio vão das angústias da madrugada
Que me deparo com incertezas vis, cruéis
Levanto acompanhando o estalar de dedos
Batendo sincronizadamente descompassadas
as unhas arranhando as almofadas
acendo um cigarro na varanda de vento quente
Será mais uma longa madrugada
Entre um trago e outro a face molha sem porquês
E possuindo em si, todos os porquês possíveis
Observo de longe a todos, manias de quem sofre demais
É como um conforto para todos, causar um desconforto a mim
Será que essa face ainda molhará por outros motivos?
Que não, as iniquidades dos que gratuitamente
Me cospem farpas de fogo, dia após dia
As indiferenças mundanas
As solidões de mesas de bar
As novamente necessárias doses incertas de zolpidem
O que fora feito para mim? Qual espécie cruel de loucura queriam-me causar?
O meu suicídio talvez?
O final certeiro e bonito para um dos contos de Kelmer!
E depois de dois, talvez três semanas...
As vidas todas, seguindo com seus rumos,
Eu teria sido, como Tânia, o travesti de mais um conto,
apodrecendo e definhando em um sepulcro esquecido

Desço as escadas em mais um cigarro
um rato atravessa a rua, companhia certeira da madrugada
Os porquês, ainda infindáveis porquês
Da falta de concentração, consideração
amizade, respeito, afeto-fato
Sem interesses somente no bife posto a mesa
É desse cansaço que falo...

Vai amanhecer
Apaga o cigarro, sobe as escadas
Afaga o rato, sim!
Apaga os lampejos
Engole a pílula
E deita,

Guarda o banquinho para um outro dia,
Quem sabe?






Jaz o Jazz

Querendo ser sóbria, rezo sempre uma contradição
Me observo no espelho e pergunto
-a quem quero enganar?
O que digo quando te ver passante?
pelos caminhos que sei:
Ainda irão se cruzar.
Pergunto com todas as incertezas
cabíveis a mim por direito
O que fora feito de tão grave
Para que de súbito, voasse?
Foram meus poemas pesados?
Minhas meia-verdades não colocadas em teu colchão?
Foi minha franqueza, ao dizer que não me demoraria?

Preste atenção:
Tudo não passa de balela
De quem muito teme e pouco vive
Tudo não passou de desespero
De quem fora precoce demais
...para agora em tudo crer.

Difícil mesmo é manter os pés cravados
Numa monstruosidade que a mim não pertence
Não nasci para ser canalha
Saiba!
Não me basta pele seca.
Engoli o choro e vomitei inverdades
A verdade mesmo... essa eu também engoli
Junto às minhas feridas não-curadas

Ouça baixo:
A muito um sorriso assim não me arrebatava
E ao perceber, eu fugi
Levei comigo a ponta dos teus dedos
Me decorando, parecia saber
que eu não ficaria ali
A muito uma cara sacana não me derrubava com tamanha rasteira
E correndo, fugindo, não querendo
Quando vi, já estava no chão.

Se me permite eu explico daqui:
A liberdade das palavras nunca havia me deixado
Tão sem lugar
E a tua voz eu ainda levo, leve...
Como um jazz, como um jazz.


sábado, 5 de setembro de 2015

CONTRO-VERSO



Eu aqui sentindo o gosto ruim que paira
na minha boca amarga, em mim amarga a boca
O gosto amargo, um soco, único
Prazeres possíveis...
I want a sunday kind of love, só mais uma vez
Vomitando poemas desconexos, por mais que eu diga não
Redundante e massivamente desonestos
Fujo da dor como já fugi de minha própria pessoa
Fujo de qualquer cor que possa colorir meus dias
Contraditoriamente fato:
Procurando tragos de amor que evaporem com o bater do vento
Dizendo o inverso do que antes eu diria
Deixando explicito o que eu realmente queria
Confundindo acasos com casos,
Me faço controverso
Sou o inverso do que posso parecer
O riso preso no meio da garganta
A unha cravada na carne do coração
“Que pulsa como a muito, não”
Respingando amargura e movendo-se de lugar
Para dar passagem às pedras que, do caminho
Fizeram agora de morada o peito
Para ir morrendo, definhando, amolecendo
E de tanto querer não mais sentir, salta do banquinho
Enfria o corpo e emudece
Aqui jaz o amor sem fé, dependurado pelo pescoço.