Tudo é uma questão de semântica.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

20 DIAS


Não quero mais o que não me deixa marcas
Na pele, na derme, na alma
Não quero mais o vazio da liberdade que aprisiona
Tampouco a ilusória prisão da liberdade
Mas me quero ter, como me tinha outrora
Não quero mais contar as horas
Com as chagas pulsando nas mãos
Com o câncer ardendo no estomago
Com o suor escorrendo na pele
Não quero mais não querer mais
E escrever poemas desonestos
E partir de princípios pegajosos
E escrever sempre os mesmos versos
Me respirar e me proteger
Do teu propósito insano
De ser teu remédio profano
De ser a cura pro teu tédio
A borracha que apaga as mágoas
E afaga a carência onipresente
Quero me ter e doar a quem quiser honestamente
Queira tanto que desanda a doer
Que faço com os poucos dias que me restam?
Que faço eu com a visão do mal que estou cavando?
Que faço eu me jogando no meu próprio inferno?
Que faço eu, vomitando minha sanidade pra bem longe?
Corro ou grito?
Choro ou fico?
Cheiro ou riso?

Fujo e mato? Ou fico e morro?

Remédio II


Devora bem, uma garrafa de vinho como ninguém
Sorri entre as pernas e pelos da alma
É pele sem demora
Devora bem, a minha carne como ninguém
E devora meu âmago torturado
Pela infelicidade de não saber esperar
Devora bem, meu instinto famigerado
Minha sede amanhecida
Meu por do sol engaiolado
Minha brisa de noite fria
E devora bem meus suspiros de luxuria
Meu prazer que divaga só em mim
E devora bem, meus olhares provocantes de
Te quero hoje, te quero agora
E devora bem, meus suplícios e meus vícios
De carne e de ardor
De ardor, de ardor

De ar... de dor...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dose Única



Aquela loucura resplandecendo no olhar
Aquela boca madura, que me fazia calar
O prazer dos prazeres dos deuses
A fome insaciável de fome
A cura dos males com erros
O bloco dos prazeres errantes
A alegria desprovida de carne
O prazer em ver e ouvir
O sentir dos meus poros com os olhos
E a faminta e calma perversão
O afago com teu hálito quente
A serpente se enroscando no meu corpo
Os meus ossos estalando de repente
E na nuca a tua voz madura e rouca
Conta-me histórias frente a frente
E atiça os instintos mais doentes
Cura minhas loucuras resguardadas
E me causa outras loucuras tais
Mostra-me coragem, vontade-carne
Mostra-me, a mim, mostra
Encosta no final das contas
Pede a conta
E me devolve o ar

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Boa Sorte




Inesperado, insensato, incansável
Inexplicável, inigualável
Muito, muito amável
Se me dizes agora, vem
Eu vou e fico
Mas sei de tuas asas e sei do meu abrigo
O bom é levar
Teus olhos e ares
Palavras e festas
Um pedaço pequeno de tua alma
Suficiente para cheirar sempre que necessário
Se me dizes vai e felicita
Brinda tua vida
Encontra motivos para não fugir
Te digo, vai
E voa, o mais alto que conseguir
Os desenhos no quadro, riscados a giz
O fogo nos poemas velhos
O Iggy no som quebrado
E a amizade que tive
Porque plantar o mal não diz mais nada
E meu espírito livre como ele só
É quem te diz
Obrigado, e voa, voa o mais alto que conseguir.



domingo, 18 de agosto de 2013

Strip Tease





Chegou ao apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.

Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".

Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que compartilho, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."

Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que cheguei até aqui. A intenção é única, te deixar saber que é amado e deixar  pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

domingo, 30 de junho de 2013

Muito Obrigado!

Obrigado pela falta de tudo
Considerações amizade e respeito
Esse do qual você tanto falava
Obrigado por ter acreditado
Nas primeiras palavras que te disseram a meu respeito
E obrigado por não ter acreditado
Nas que saiam da minha boca
Obrigado por me dar motivos
Pra querer sempre mais
Distância, repugnância, arrogância
Em se tratando de ti
E por falar em arrogância
Obrigado por ter aprendido a lição
E ter me deixado com o coração na mão
Os pra sempre são todos iguais
Sempre chegam ao seu determinado final
Obrigado por ter me comparado
As sujeiras que rodeavam tua vida
E por ter se divertido
As minhas custas, aos meus sorrisos
A minha pele e alma
Sim, pois eu tenho também
E por falar em coisas que tenho
Tenho dor e não nego, aliás, não nego nada o que tenho
Nem que tive
Mas isso eu não preciso lhe falar
Obrigado por ter ouvido meus segredos
E por eu ter certeza de que não vais guardar
Fiz de tudo um pouco, e um pouco mais
Dependia das doses, meu bem.
Arrependimento?
Não o conhecia até então
Mas como pra tudo há uma primeira vez
Ah se eu pudesse voltar
Jamais teria segurado o teu copo
Mas como não há volta
O jeito é te exorcizar
A você o meu muito obrigado
Que fique guardado
No seu lugar.

Des-culpa

Desculpe-me pela inconveniência
De te querer desta forma
De pensar em ti até que amanheça
E sorrir quando você me acorda
Desculpe-me por não ter te procurado
Nas horas e lugares certos
Por ter deixado a vida seguir
Por caminhos tão incertos
Me desculpe por pedir desculpas
Quando não sinto a culpa
E me desculpe pela falta da culpa também
Me desculpe por te desejar
Assim todas as horas em que respiro
Me desculpe por ser assim
E te querer a pele
Te querer matar a sede
Te querer queimar o corpo
Desculpe-me por não ter coragem
De saciar meu desejo
Matar-te a bilhões de beijos
Implorar para ficar
Me perdoe pelo tempo, que me falta
Pela impossibilidade de viver
Essa luxúria que me queima
Esse desejo que me arde
E me faz ranger os dentes
De imaginar teu peso sobre mim
Me desculpe pelo não posso
Mas é que a vida
Achou de brincar de me espancar
Com tapas sem mãos
Com luvas de películas
Com faltas que não posso saciar
Me desculpe pela ausência da culpa
Mas é que as coisas
Por si só, meu bem
Já são demais para pesar.




Se...

E se eu pudesse dizer perdoa-me
Eu diria
Mas a minha infâmia e maldade seriam cada vez maiores
Se eu pudesse arrancar de ti a dor
E todos os espinhos que te cravei
Acredite-me tiraria e enfiaria em minha carne
Um a um
Se eu pudesse me converter numa surra de silício
Eu assim o faria
Mas de nada adiantou eu sofrer
Senão, valer a tua certeza de não sofrer só
Mas de nada adiantaria eu de cá
Tentar sarar a tua dor
Tentar afanar as tuas lágrimas
Tentar roubar-te o teu pesar
Deixo-te viver e me retiro
Levo junto o meu amor, mas levo bem guardado
Mesmo que desfigurado
Se eu pudesse dizer eu diria
Perdoa-me por meus passos mal dados
Meus carinhos mal intencionados
Minhas dores, minhas angústias
Minha exigência, minha posse
Minha repugnante pessoa
Minha cara cínica
Mas verdadeira como só eu sei
Perdoa minhas trapaças
Minhas ameaças
Minhas injustiças e imperfeições
Perdoa minha falta de sensibilidade
Mesmo me julgando tão sensível
Aliás, perdoa eu ter sido sensível demais
Perdoa a falta de tempo, de espaço
De tudo
Perdoa a falta
E a falta que eu sei que a falta faz
Se eu pudesse dizer eu assim diria
Perdoa
Mas eu não posso
Não posso
Por isso, deixo-te em paz.

Cadê?

E o olhar doce, cadê?
E o amor todo, onde esta?
E a vontade enorme, morreu?
E a amizade também, onde foi?
Onde mora agora aquele fogo todo que se dizia amor?
Era paixão?
Era paixão...
Assim, avassaladora até a ponta das unhas
Faltava arrancar o ventre de tanta ansiedade
Faltava enlouquecer de tanto desejo
Faltava explodir de tanta felicidade
Não cabia no peito, não cabia nas mãos,
Não cabia mais nem sequer nos pensamentos
Tinha que ser vivido
Mostrado
Cantado
Gritado
E agora, cadê?
Cadê carinho, amizade, cúmplice de quem?
Cadê?
Agora, não mais se sabe
Vai ver foi tudo se guardar, no mesmo armário de onde não deveria ter se furtado.

sábado, 8 de junho de 2013

Maria Joana




Gosto de gente doidona
Que aprecia um bom papo
Um bom vinho
Que se sente à mesa de um bar qualquer
E fale de decoração ou poesia
Gente que não se prende...
À preguiça de corpo         
À preguiça de mente
Que seja incansável e
Mantenha a juventude
A plenos 80 anos
Ou 80 passos
Que grite a plenos pulmões
Que ame a plena pele
Que aposte a mesma no amor
A qualquer coisa que a seus olhos seja amável
Gente sem cheiro de cheetos
Sem medo de altura
Sem medo da madrugada
Que não canse
E se cansa
Que descanse junto e sem roupa
Que acorde os acordes
E deixe fluir
Fluir os fluidos
Fluir a mente
Que seja gente
Que me devolva pra mim
Ou me mostre um alguém melhor
Gosto de gente que ri a toa
Que não mede esforços
Que coma junto
Que socialize até com os passarinhos
Que não tenha medo de perder
Que erre sempre que desnecessário
Que ame a qualquer hora em qualquer lugar
Gente que não se fecha pra o que é bom
Nem pra o que é ruim
Que não se fecha pra si
Gente que não vê mal algum em falar bobagem
Que ouça música até de madrugada
Gente que torra as ideias na beira da praia
Beije a boca e não fuja da razão
Ande descalço e de mãos dadas
Mas que seja no asfalto urbano às 3 da madrugada


terça-feira, 30 de abril de 2013

Pequena Morte



É preciso alimentar o monstro
O monstro da vulgaridade
Monstruosa insanidade
Insanidade nada particular
É preciso ferver o sangue
E deixar a pele falar
Minha sede devora teu pudor
O mata e suplica
Mata-me lentamente
Como os franceses em seus risos recatados
Acende-me novamente o veneno
E joga-me na fogueira das paixões proibidas
Violenta essa culpa que me atrai
Relembra  a cólera
Relembra o vidro embaçado
Relembro o riso perdido na fumaça
Destrói essa falta de tudo
E me mata no fim
Violentamente
A mais bela violência
Aquela  dos franceses, lembra?
Aquela a quem chamam
Pequena morte.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ao Fim do Eterno.

Estou me afastando de tudo que queria
Queria bem, como ninguém
Mas que não saiu como planejado
Estou indo embora, mas deixo um abraço
E levo minhas contas por pagar
Estou me afastando do que me anula
E do que me deixa também anular
Estou partindo, mas deixo lembranças
E certamente as levarei também
Desejo-te sorte e novas histórias
E certamente alguém para amar
Desejo-te banhos de chuva e chá quente
E alguém para conversar
Desejo a mim a mesma sorte
Os mesmos biscoitos e beijos
Estou levando muito de ti
E acredite, muito a agradecer
Saber brincar é um dom
Mas rir de tudo é medo
Desejo-te coragem para seguir em frente
E que não generalize
A vida é uma só, só sabe quem vive
Desejo-te ar puro e bons filhos
Que certamente irão te admirar
Enquanto isso eu sigo meu caminho
Aumento meu volume e sigo meu blues
Levo de ti a amizade e carinho
E o respeito escondido no fundo do pote
Pois acredito que ainda haja algum
Quero te ver sorrindo lá na frente
E se precisar
Sempre pode ligar, lembra?
Amizade em primeiro lugar
Estou indo embora porque preciso voar
Mas fique certo
Não fui por não te amar
Levo de ti a certeza da bondade
E de que realmente vivi um amor
Enquanto isso pego meu copo
Sirvo-me de vinho
Sigo meu caminho
E vou pro meu lugar.

Anti-solidão

Eu andei entupindo os meus neurônios
Com veneno anti-escuridão
Eu andei perdida no asfalto
E voltei pela contramão
Eu ando dando doses de remédios
Cavalares para meu coração
Dando doses de insulina e outras drogas
A primeira chama-se compaixão
Até quando escutar meias verdades?
Até quando perdoar o mesmo perdão?
Submissão não combina com meus olhos
A não ser quando quero, quando peço
Quando mando...
Agora dispenso qualquer opinião
Eu andei entupindo minhas narinas
Com veneno anti-solidão

Desnuda Lua...

Duas luas
Uma para cada um de nós
Luas para usarmos os lençóis
Fazermos dele nosso leito
Nosso eterno travesseiro
Fazer-me te fazer
Derramar e mergulhar
Banhar em teu peito
Colo
Me junta desse mundo
Em que vago perdida
E em tom de despedida
Irei me redimir
Das luas tuas, nossas
Vontades ilícitas expostas
Da ate vontade de sorrir
Duas luas
Uma para cada peito
Para nossos defeitos
Deletérios perfeitos
Históricos metafóricos
Histéricos gritos estreitos
Peito
Arranca sem receio
Arranca a roupa a vontade e as verdades
Devora com tua sagaz voracidade
Não meça palavras
Não meça chão
Pois tudo que me vive, me faz
E te ter por entre e sempre
Minhas pernas, minhas mãos.

Chuva

E a noite então guardava ainda todo o segredo
Silenciosa ela me observava como um assassino
Como um lobo espreitando a sua presa
A muito presa querendo libertar
Libertar o demônio das noites chuvosas
Saindo do seu próprio corpo
Voltando pro mesmo lugar
Neblinosas eram as ruas
As casas-carros, tiros certeiros
Soltos em meio à neblina
E meu pesar traiçoeiro
    [Que bem sei como a química explica
‘’Ela pôs-se a sentir toda neblina no rosto, deixou a alma voar,saiu do lugar’’
E eles postos em volta dela
A observá-la pela janela
Até a vontade saciar.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Veneno

Queria poder tua janela apedrejar
Queria apedrejá-las para tentar me saciar
Queria destilar em você seu próprio veneno
Queria te afogar em lágrimas daquele tempo
Queria poder publicar todas as tuas verdades forjadas
Programadas e esquematizadas
Queria poder fazer isso antes de mais nada
Queria te desmascarar tirando cartas da tua manga
Queria não mais olhar pra os mesmos lugares como a regra manda
Faria salada de você
Para poder te cortar
Para poder te morder
Para poder florescer te olhando apodrecer
Queria rasgar tua pele num ritual satânico
Queria furar teu voodoo com os horrores mais desumanos
Queria te entupir de ópio e te fazer adormecer
Mas a verdade disso tudo...
Nem eu consigo entender.

PSICOPATA

Você precisa de bem mais que veneno e tiros certeiros para me matar
Você precisa queimar seu travesseiro
- Com meu cheiro
E tentar me exorcizar
Minha voz é muito mais alta no silencio da tua cabeça
- Vazia
Minha pele é bem mais macia no fundo da tua imaginação
- Psicopata
Mata-me de desejos de rir das tuas cantadas
- Baratas
Meu sexo é bem mais gostoso quando você se masturba pra mim
A tua doença necessita de bem mais que remédios para ter um fim
Tua doença se chama tédio
Que só pode ser curado por mim
Não adianta me procurar em outros beijos, baby
Como diriam os destruidores:
Você só vai ter um barato ruim.
Você é meu psicopata, me idolatra
Imagina-me no chuveiro
Procura-me no travesseiro
É meu bem, alguns sentimentos são eternamente traiçoeiros
Guerra.

9:15 Quando as desculpas param de funcionar

Acabo de injetar sangue de barata nas minhas veias
Pois todos nós estamos expostos a situações como esta
E todos estão lá fora, rindo por dentro
Destilando venenos estragados
Tudo já passou da validade
Maldita seja nossa covarde coragem
E eu ri de mim mesma querendo chorar
Porque é muito perigoso para a saúde do corpo
E o bem da mente
Quando as desculpas param de funcionar
Minhas mãos estão cada vez mais dormentes
Já não estou tendo como me segurar
E a água parecia petrificada no fundo do copo
E o sangue parecia sumir de ambos os corpos
Era tudo verdade
Mesmo sendo tudo mentira
Meus, teus, nossos porquês
E eu preparava novamente o tabuleiro
Para reiniciar o jogo de xadrez
Todos nós um dia traímos a nós mesmos
Se a nós mesmos, porque preocupar-se com segundas pessoas então?
A chuva sempre ameaçava cair no mesmo horário
Como se quisesse fazer-se cúmplice daquela história toda
Ela olhava o horário
Ele procurava um novo itinerário
E a carne novamente começava a tremer
Ele vê coisas, ela mostra coisas
E os dois não sabem que caminho percorrer

INCESTO

Somos todos vis
Cruéis e mesquinhos
E a fumaça do cigarro me levou pra bem longe
Viagens pesadas no meio da estrada
E o espelho me mostra quem eu sou
Era como se o ato incestuoso
Tivesse sido previamente calculado
Planejado e armado
Erro
Era como uma mensagem numa tela digital
Erro
Era o que rodava minha cabeça como pássaros azuis
Erro
Era como se meu sangue tivesse sumido e levado junto minha consciência
E a vidraça embaçava
Erro
E os milhões de pessoas a quem machuquei?
E os tantos que faríamos chorar?
E o momento não me sai da cabeça:
Erro
Erro
Erro
Fogueira!
Deveríamos ser condenados a fogueira, sem piedade
Deveríamos pagar por tal atrocidade
Deveríamos levar chibatadas em praça publica
O pesar vem como milhões de raios que me acometem num momento de repouso
E os rostos todos, todos aqueles rostos
Que nos olham
Que nos apontam
Que nos condenam
Que nos desmontam
E os nossos dedos no nosso próprio rosto?
E a dor?
E o peso?
E depois?
E antes?
Como foi?
Erro
A fogueira dos incestuosos foi acesa, agora só basta esperar queimar.

Drive in

O caminho turbulento nos levou ao sabor
Você dizia que queria que eu fosse só sua
Dizia que minha carne era a melhor
Dizia que sem mim não seria a mesma coisa

Todas as marcas da estrada
Apontavam para a mesma direção
Volúpia viva
Caminho da libertação

As marcas no meu corpo me faziam lembrar
Que nada volta pro mesmo lugar
Depois que se prova a lição
Depois que se aprende a voar

Me ensina e andar pelos teus caminhos
Me mostra qual delas quer que eu seja
Me da uma colher do teu carinho
E impõe que eu nunca mais esqueça

Me fala da tua boca essas mentiras
Que aceito e engulo todas com carinho
Me da uma gota do teu suor
Que eu preparo pra você o mesmo ninho

Me leva pra onde bem quiseres
Que aceito e calo tudo como queres
Só me diz qual será minha lição
Que aprendo a me fazer em mil mulheres

Me leva pra tua toca teu abrigo
Eu garanto que prazer terás comigo
Não precisa me amar me adiar
Só precisa manter sempre o meu lugar

Um drive in de beira de estrada
Não importa se é dia ou se é madrugada
Me faz tua mulher por um instante
Que aceito a condição de tua amante

Permito que me bata que me ofenda
Que me jogue no chão me surpreenda
Permito que me chame de outro nome
Se me permite imaginar que és só meu homem.